Angella Conte

Outros projetos

Angella Conte no YouTube
Angella Conte no WordPress

ANGELLA CONTE > TEXTOS CRÍTICOS

Textos Críticos


Andrés I. M. Hernández


Afluentes do Signo

Serei um dia simples
Sereno por excesso
Conciso barroco
Declina o silêncio
Sempre terá sido jamais.

Ronaldo Brito
em Quarta do singular, Duas cidades, São Paulo,1989.

O espaço tem sido, desde os primórdios da arte moderna, um elemento a ser levado em consideração na hora de pensar um projeto expositivo. Exemplos não faltam, como a Exposition Internationale du Surréalisme, na Galerie Beaux-Arts, em Paris , em 1947 e o “Salon de Madame B.à Dresden” de Mondrian. No contexto atual, brasileiro, o Projeto Parede do Museu de Arte Moderna de São Paulo, as janelas da exposição “Beatriz Milhazes: pinturas, colagens”, na Estação Pinacoteca e as mostras recentes de Cildo Meireles e Artur Bairro, entre outros, mostram que esse pensamento já foi consolidado.

Angella Conte, com uma produção literalmente contemporânea, concebe seus trabalhos como instalações. Cada uma de suas obras sustenta-se, do ponto de vista material e formal, a medida em que incorpora o contexto espacial em que se insere. Com uma seleção de obras que levou em conta, sobretudo, a adequação ao espaço expositivo disponível, a exposição “Da nascente à Foz”, no Museu Florestal Octavio Vecchi, resume, como em uma reticula do todo, essa característica da artista.

A configuração estilística e conceitual dos trabalhos de Conte nos dá a dimensão de um minucioso e rigoroso uso de recursos sofisticados que nos levam a uma viagem cuja origem remonta ao início da História da Arte. A artista, transitando por diversos estilos artísticos, explora diferentes suportes. Inicialmente a fotografia e, logo em seguida, a escultura e o vídeo, tendo sempre como base o desenho.

A exposição no térreo do Museu Florestal “Octávio Vecchi” e em um dos lagos do Horto Florestal traz à tona uma das preocupações do idealizador do Museu. Se, no caso dele, a preocupação era com o desmatamento – o que o levou a estudar formas de diminuir os impactos ambientais – na exposição “Da nascente à Foz” o objetivo da artista é apresentar, através das obras mostradas, a preocupação com a conservação das reservas de água do planeta.

A artista, que tem uma pesquisa sistemática sobre os diversos estágios do espiral cognoscitivo e temporal, usa esses elementos na hora de elaborar seus manifestos (entenda-se obras de arte). Observa-se, em seus trabalhos, uma ressonância discursiva (de discurso e discussão) da relação entre natureza viva e morta, através de uma representação do gênero “natureza morta”, que enfatiza os processos ou intervalos entre os dois estados. Ao colocar dentro de um contexto expográfico, seja de forma bidimensional quanto tridimensional, elementos naturais e outros oriundos do recinto museológico, a artista desloca a discussão para o campo da arte propriamente.

Na obra Silêncio galhos e raízes de árvores ‘invadem’ as grades. Nas fotos, há uma resposta da natureza à ação do homem: uma espécie de protesto silencioso pela própria liberdade, pela vida, representados subjetivamente através de uma das mais discutidas e contemporâneas das linguagens artísticas. Os próprios metais, extraídos da natureza, rebelam-se, como reflexo de uma empreitada desastrosa do homem, que se reverte contra ele mesmo. A obra pode ser vista a partir de qualquer ângulo da sala, num contexto em que os demais trabalhos em exposição dialogam com ela, como a constituir a parte de um todo. Cada peça da obra age como suporte da outra, gerando um processo sem começo nem fim. 

Um vídeo do rio de Piracicaba, além de seu significado “presente”, imediato, em si mesmo, estabelece uma conexão da produção recente da artista que ocupa este andar do Museu. A projeção dos caudais do rio desafia o espectador criando um jogo entre a ausência e a presença. Ausência do rio que não está propriamente ali, mas aparece apenas representado através de uma sucessão de imagens. Um rio que hoje existe, mas pode deixar de existir amanhã, convertendo-se em uma dupla metáfora do presente e do futuro. As lâmpadas azuis penduradas do teto, e cujo reflexo aparece nas ‘’charcas” de espelhos no chão da sala, também fazem alusão às sombras e à luz, à lembrança instantânea do corpo, mas desta vez misturada com luz, projeção, alegrias, culpas e desejos.

O lugar e o não-lugar, a presença e a ausência são conceitos a serem avaliados na mostra. A projeção manifesta-se como uma negação da dissolução do passado, como se ele estivesse presente nesse momento. Concebe-se como uma origem literal, um começo a partir do zero, um nascimento, como a própria nascente do rio, memória que nos remete à imagem em movimento. O filme converte-se numa metáfora organicista referente não tanto a uma invenção formal, mas às fontes da vida. Permite-nos estabelecer uma distinção absoluta entre o presente “quase” experimentado e um passado cheio de lembranças e tradição.

A intervenção no lago tem elementos com o mesmo significado simbólico do registro do rio no vídeo. Essas semelhanças compõem a visão de um todo e re-significam, metaforicamente, uma discussão contemporânea na arte, a saber, o uso de elementos comuns do nosso cotidiano. Soma-se a isso outra questão, não menos contemporânea, que é a preservação ambiental, no caso específico, a preocupação com o fim das reservas de água do planeta. Por meio dela também evidencia-se uma discussão de fundo sócio-político, pouco vista na produção artística brasileira contemporânea.

Além desta preocupação, também está presente uma relação cromática entre as obras: um jogo entre os elementos “invasores” que as compõem e os elementos do contexto local: árvores, plantas, animais, água e o cubo branco do espaço expositivo moderno. A artista faz com que esses elementos se insiram na discussão conceitual da proposta. Estabelece uma relação figura-fundo na qual os elementos já existentes e os novos se alternam indistintamente, disputando as categorias filosóficas já mencionadas: espaço e tempo.

Há uma compreensão contemporânea do espaço e do tempo a medida em que idéias e objetos, concebidos em tempos e modos diferentes, estabelecem uma relação atemporal no conteúdo e na forma. Estes procedimentos estabelecem a recusa à identificação, classificação e distinção. A rigor, não há limites. Tudo se passa como se a representação da água do rio no vídeo, no térreo, se convertesse em objeto como os sais e minerais, que se misturam na corrente de água e se desfazem de qualquer definição ao serem colocados lado a lado.

As bacias de alumínio, num dos lagos artificiais do Horto Florestal, dão as boas-vindas aos visitantes. Objetos fora de lugar e inseridos num espaço anacrônico causam no visitante uma estranheza em relação ao lugar. Há um simbolismo no conjunto, que leva a essa estranheza, mas que, ao mesmo tempo, possibilita a associação com as interferências do homem e suas múltiplas intervenções nos contextos naturais.

Brilhantes que nos remetem à classificação legendária e universal da abundância, do poder. Metáfora de possibilidades e poder. Um poder submetido à ignorância e ao descuido. Metal e água. Solúveis ou não? Água: pura ou poluída? Metal sobre água: o poder da escassez sobre a água, da abundância e do limite. E as bacias, ao mesmo tempo, simbolizam escassez. Há, simbolicamente, um jogo de poder e distância, fantasia e realidade que pode se transformar em melancolia.

Neste caso, a inacessibilidade das bacias ,  trazem uma mensagem que foge de sua usual função protetora, limitando-as espacial e praticamente. São sinônimos de alerta. Um chamado à reflexão. Objetos que, fora de seu contexto e com sua função transferida ao não-lugar, ganham uma nova função simbólica  que, desta vez, pelo lugar e contexto em que foram inseridos, nos alertam sobre como nossos atos podem ainda evitar a catástrofe.

Ao mesmo tempo, aqui, a relação com a paisagem  vai gerar a discussão em relação à “interferência” nas vivências, lembranças de cada um que visite o lugar com as referências pessoais, possibilitando a inserção de cada um, a partir destas vivências pessoais na abordagem e interpretação das propostas da artista.

Na instalação Fonte a fotografia é explorada em algumas de suas possibilidades: como a representação bidimensional e como a incorporação à tridimensionalidade no caso do uso do backlight. A representação de um bebedouro seco nos remete à sensação de ausência. A ausência que neutraliza sua função, que justifica seu uso. Sem água, o bebedouro se torna inútil, desnecessário. Um objeto sem função  e sentido.

No vídeo  Environment I, quatro cenas giram, em sentido horário, sobre a imagem de uma massa incontrolável e incalculável de pessoas. A artista que, no processo inverso, tem seu cabelo - que estava molhado - seco, em sintonia com o degelo de um iceberg dos pólos, uma privada e uma banheira. Aqui, a realidade é representada como cheia de possíveis situações e o tempo das lembranças não é necessariamente o passado. Há uma representação do entorno na obra de Conte, assim como uma simbologia sistêmica nos trabalhos da artista, independentemente do suporte que ela utilize.

Nas fotografias EntrePlanos, da Serra da Cantareira, as imagens, de uma beleza singular e infinita, nos permitem visualizar a mais cruel ação do homem sobre a natureza, fruto do crescimento desmedido da metrópole de São Paulo. São frutos que, metaforicamente, crescem como crescem as árvores pelo sustento natural da terra e, sobretudo, em contato com a água. Neste caso, os frutos são de concreto e aço, são a poluição e os tons cinzas. Se a representação pictórica da artista contém uma verdade indiscutível, a realidade é uma agressão sem limites sobre a Mãe Terra. Os contornos da Serra diluem-se nos limites dos prédios e construções que se erguem como espirais de invasão, revelando uma relação de força e antagonismo visual e cênico.

Mas há esperança na representação, Conte captou em Planeta Terra o Sol nascente repetidamente em diferentes intervalos espaciais e de tempo. Uma outra vez, a aurora apresenta-se estática, em caixas de madeira, como relíquia.

No Brasil, diferentemente da grande maioria dos países latino-americanos, a arte de denúncia social é limitada a períodos curtos e esporádicos. Poucos artistas e curadores refletem ou discutem sobre o tema. Conte, não entanto, traz a tona a discussão sobre o tema do meio-ambiente com um viés social que transcende as fronteiras locais na discussão de um tema com conotações universais.

Em cada uma das obras de Conte, estão em evidência, de uma forma ou outra, a singularidade, autenticidade, unicidade e originalidade, estabelecendo, em cada projeto, uma conexão direta com o momento originário em que esse resultado converte-se em reflexo empírico e semiológico. Desta forma, o significado pretendido pela artista converte-se na condição repetitiva de um mesmo significado e, desta forma, em cada significado há implícita uma decisão prévia de convertê-lo em veículo de um signo.

A singularidade de cada peça está vinculada às imagens que sucessivamente estão representadas, assim como à forma em que estas imagens são registradas em nossa imaginação: não de forma estática, mas através de uma recomposição constante e interrupta. Esta singularidade baseia-se no reconhecimento do espectador no momento da percepção, tendo como referência a imagem um objeto vivo, ou diante da presença mesmo deste objeto.

A exposição, desta forma, mostra obras que, mesmo separadas por propostas, em conjunto criam uma corrente única e orgânica de discussão e percepção.

 

Andrés I. M. Hernández
Curador e critico de arte
São Paulo fevereiro 2009.

 

Da Nascente à Foz

Angella Conte, natural de Jaboticabal,  apresenta uma exposição em que todas as obras se articulam, como num grande sistema, formando um discurso dirigido à preservação das reservas de água do planeta. Tendo como ponto de partida o espaço expositivo, no caso, o Museu Florestal "Octávio Vecchi" e seu entorno, a artista cria uma série de trabalhos que refletem sobre a arte, a natureza e as ações humanas. E é exatamente por essa relação íntima que os trabalhos mantém com o local em que se estabelecem que sua obra mostra-se extremamente contemporânea, já que o espaço tem sido, desde os primórdios da arte moderna, um elemento a ser levado em consideração na hora de pensar qualquer projeto expositivo.

Mas, além do caráter de manifesto e de denúncia social, que permeia toda a exposição, os trabalhos propõem uma expansão no modo com que normalmente se concebe a relação do homem com a natureza. A ativação da memória de uma paisagem que já não existe mais (ou poderá deixar de existir em breve), a experiência com a natureza transformada numa experiência com imagens, a alegria que sentimos ao observar o curso de um rio transposto para um museu (lugar de contemplação estética por excelência), são algumas das sensações que as obras despertam. A artista mostra fotos, vídeos, obras tridimensionais, enfim, os mais diversos suportes para ampliar a reflexão do público sobre esse tema tão corrente quanto relevante hoje em dia.

 

Andrés I. M. Hernández
Curador e critico de arte

 

Voltar ao topo

 

 

Oscar D´ Ambrosio


O que está dentro está fora

A instalação Inside / Outside da artista plástica Angella Conte, mostrada no 12º Salão Paulista de Arte Contemporânea, discute bem mais do que a simples questão das relações entre elementos internos e externos a uma casa. Essa instância talvez seja menos  importante perante o instaurar de um olhar subversivo do mundo.

Os dois vídeos simultâneos trazem, por um lado, para a rua, ações do mundo privado, como ler o jornal sentado no sofá da sala, e levam ao cotidiano o universo da rua, como andar de guarda-chuva. Discutem o poder da arte de propor um novo olhar sobre elementos do dia-a-dia praticados pelo hábito, sem raciocínio. Além disso, há uma seqüência de fotos tiradas de dentro da casa mostrando imagens da rua e a gravação de sons desse ambiente externo. A discussão dos limites está acompanhada de uma mescla de percepções, nas quais a capacidade de saber sentir, por qualquer um dos sentidos, é associada ao diálogo que cada um tem com o mundo.

O ato de ver cada instante do dia-a-dia num novo ambiente gera a necessidade de fazer cada nova ação com frescor. Os trabalhos da artista são um manifesto contra o piloto automático, um questionamento marcado pela poesia sobre a falta de atenção que se dá ao que se faz e a ausência de um pensamento denso sobre esse executar.

Angella Conte revela como a ação do mundo público na esfera privada ganha em mistério; e o ato banal, na dimensão do socialmente visível, gera desnudamento. O interior do ser humano, em ambas as situações, ganha a esfera do conhecido. É tirado o véu e introduzida a dúvida sobre como o cotidiano é grandioso em sua pequenez.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

Voltar ao topo

 

 

 

Juliana Monachesi


Angella Conte é uma artista que coleciona coisas. Coleciona primeiro com o olhar: um olhar afetuoso sobre os objetos ao seu redor; sobre a cidade e seus respiros, seus entulhos; sobre as pessoas que deixam marcas nos objetos e nas cidades. A artista coleciona, então, na prática: junta coisas, recolhe coisas, fotografa e fotografa e fotografa. Tudo o que reúne ganha, em algum momento, novo status, quando ela devolve ao mundo um apanhado de coisas antes sem importância prenhes de novas significações.

Até 2004, a produção artística de Angella Conte era predominantemente em pedra, mas mesmo ali, antes de aproximar de seu trabalho práticas fotográficas e instalativas, já estava a gênese colecionista e afetuosa de sua poética: cavar e talhar na pedra uma forma era uma primeira maneira de buscar o encontro com o insondável do mundo. Em 2006, esse movimento fica claro quando a artista fotografa pedreiras de extração de mármore e intitula as fotografias com nomes de trabalhadores daquele local.

 

A partir dessa obra, toda a sua investigação estética passa a ser marcada por um aproveitamento de todas as etapas que constituem o trabalho: um crescente envolvimento com as pessoas, as coisas, as sobras vai determinar a abertura de sua produção para várias linguagens e resultar em séries de obras –e não mais uma ou algumas peças que não deixam nada de fora do processo, nem o som, nem o contexto, nada mesmo, tudo vira matéria prima para a expressão de uma busca inquieta.

 

Juliana Monachesi
São Paulo, março de 2008

 

Voltar ao topo

 

 

 

Vera Martins


Angella ao documentar uma realidade constrói um mundo nunca visto e sob uma iluminação adequada surge imagens instigantes. Numa visão ilimitada do mundo, não existe um único estado ou limite finito, a consciência pode também ser compreendida como uma festa em movimento. Nada jamais é permanente ou parado, existe um processo de investigação, uma forma de abordar o mundo não como um série de verdades precisas, mas em termos de questões e possibilidades, muitas vezes em configurações inesperadas – como a finalidade de agir simultaneamente, sobre o instinto e o intelecto.

Angella trata a máquina fotográfica ou o vídeo de mesmo modo como se trata um pincel. Nestes trabalhos o que importa é a originalidade da idéia e não mais as marcas da mão da artista sobre o trabalho. Ao recolher objetos pertencentes ao nosso cotidiano, desde objetos abandonados sem mais utilidades aparentes, até lembranças de lugares visitados, bilhetes de amigos, onde os assuntos contemplados pela artista, são quase todos familiares....tem-se assim um lixo inorgânico, que não apodrece e que não se consegue descartar, assim como acontece com a nossa própria memória. Nestes trabalhos eles não foram feitos apenas para serem vistos: sua visão deve colocar em movimento a produção de idéias no espectador, considerando o espectador como parte ativa do processo.

 

Vera Martins
Artista plástica

 

Voltar ao topo

 

 

 

Katia Canton


As Paisagens-Passagens de Angella Conte
Nasci para administrar o à-toa
                              o em vão
                              o inútil.

Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
                              de pessoas com rãs
                              de pessoas com pedras
                              etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.   Manoel de Barros*
  

 *"Desejar Ser"
 In Livro Sobre Nada (1966-1998)
Ed. Record, 3a. ed., Rio de Janeiro, 1996
 

Angella Conte cria suas paisagens a partir de um sentimento de semelhança.
Nelas, podem figurar o campo ou a cidade, a natureza ou o meio urbano. A artista monta situações onde esses entornos se misturam e se confundem mutuamente.

Qualquer que seja o cenário, o protagonista é sempre o ser humano, em meio ao desejo e à falta. O motor que move o trabalho é sempre o dilema da vida humana diante da possibilidade de solidão. E um movimento incessante, gerado justamente para tentar evita-la, conforta-la, adaptar-se a ela.

É por conta desse movimento que as paisagens de Angella Conte se tornam imagens de fluxo. São paisagens-passagens, que herdam da vida a sua potência de efemeridade. Na poética da artista, tudo se transforma e é consistentemente resgatado.

Como a vida que passa e o sangue que circula nas veias, as coisas percorrem seus caminhos. Traçam uma narrativa enviesada, formando imagens que se expandem, reverberam, intrigam e confundem

 
Para compor suas fotografias, vídeos e instalações a artista cata restos, pedaços de mundo e os reorganiza aos poucos, olhando atenta e afetivamente para cada um deles. 

O mesmo campo repleto de rolos de feno, por exemplo, é matéria-prima para obras diferentes. Em Provisão, o campo é iluminado com uma caixa de luz e emoldurado por janelas de madeira. Aqui, a artista cria uma poética do tempo, onde a ação é criada para garantir um sustento. Trata-se de um presente que vislumbra um futuro, reminiscente à fábula de la Fontaihne, A Cigarra e a Formiga.

Já nas duas obras que compõem a série Entre o Céu e a Terra, esse campo é miniaturizado, horizontalizado e, finalmente, fechado entre paredes de espelho e algodão. As superfícies que espelham e amaciam, respectivamente, fazem dessas imagens relíquias, jóias imagéticas a serem protegidas no tempo.

Na montagem fotográfica Paisagens Urbanas, são os becos que estão na berlinda das imagens. Esquinas, cruzamentos e passagens afuniladas são registradas em várias cidades e lugarejos e repetidas em uma arquitetura espremida, onde a falta de espaço produz uma sensação de encalacramento. Projetamo-nos dentro desse espaço apertado e o que se sente é uma crônica falta de ar e de liberdade.

No vídeo Paisagem 2, uma janela aberta apresenta zonas limítrofes. Seria a referida paisagem o lado de dentro, escurecido, onde se vê apenas a silhueta de dois objetos em movimento? A cadeira balança vazia, numa cadência repetitiva e vaga. O pássaro, preso ao teto por uma linha transparente, tem suas asas abrindo e fechando, movidas pela pulsão do vento.

Lá fora é dia. Na paisagem externa, o que se vê é o verde e a chuva.  Áreas verdejantes desenham montanhas e revelam casinhas. A neblina esconde o horizonte, enquanto outra linha estira bandeirinhas de tecido encharcadas.  

Apenas ruídos sutis e indecifráveis atravessam a força daquele silêncio feito de claros e escuros, suspensão e movimento. A paisagem é tudo junto.

A obra Procurando sela o conjunto da exposição com a noção de deslocamentos. Aqui, a natureza é substituída pela cultura, o verde, trocado pelo avião.

Uma caixa-moldura revela um belo acúmulo de papéis. Bilhetes aéreos, utilizados pela própria artista, se somam a cartas, mapas locais, anotações de viagens. Um pedaço da Torre Eiffel, uma foto com a Estátua da Liberdade.
Imagens e textos se somam na espessura da caixa.

O resultado plástico é uma tapeçaria de cores, texturas, imagens. Conceitualmente, Procurando reflete uma busca incessante, cujo percurso parece sempre terminar no próprio ponto de partida. Então, tentamos de novo. 

Procura-se o outro, procura-se afeto, procura-se felicidade. Procuram-se semelhanças do homem com a árvore e a rã e, talvez até, com a pedra. Como diria Manoel de Barros.

 

Por Katia Canton

 

Voltar ao topo

 

 

 

Copyright 2009 - Angella Conte - Todos os direitos reservados.

Produzido por TWB Design